Modernismo entre Eleutério e Morais Junior
A recepção de Oswald de Andrade na teoria atual : de Eleutério a Luis Carlos de Morais Junior
Eliane Colchete
Conteúdo:
1) Itens de leitura: Eleutério e Luis Carlos de Morais Junior
1) Itens de leitura: Eleutério e Luis Carlos de Morais Junior
2) Leitura de
Maria de Lourdes Eleutério
3) A situação
da Arte na transição ao neoliberalismo
4) Leitura de
Luis Carlos de Morais Junior:
5) Continuação
da Leitura de Luis Carlos de Morais Junior: Platôs/ Rios / militância: da
superação do capitalismo à superação da dominação.
Paralelo dos
estudos sobre Oswald
A recepção pós-moderna de OA, tematizada por esse contraste entre
os estudos de Luis Morais Jr. e Maria de Lourdes Eleutério, pode com
proveito focalizar o tema por seu viés de época, cobrindo a
decalagem entre o consenso crítico-literário praticado no Brasil
ainda nos anos oitenta, e as questões que se mostram relevantes
aqui, na transição ao terceiro milênio. Esse viés não se coloca
de um ponto de vista extrínseco, mas descobrimos a sua oportunidade
a uma leitura mais superficial dos índices. Os pares de opostos que
ressaltam, mesmo sem ser ainda preciso aprofundar a leitura dos
textos, só se mostram mais legítimos quando desenvolvemos essa
leitura. Essas oposições, então, enunciam no seu conjunto o estado
de coisas típico daquela decalagem, conservando-se portanto útil,
também, para esclarecimento da temática pós-moderna, não só para
averiguar o que mudou na recepção de OA pela crítica literária.
= / leitura de Lourdes Eleutério
instrumentos de trabalho
fantasias
cinema como condição formal da estética modernista
Antropofagia / o real
conceito do social
tempo corrosivo
= / leitura de Luis Morais Jr.
máquinas
máscaras
cinema como elemento do virtual
Antropofagia / o inconsciente
conceito de articulação ontológica
tempo construtivo
Enquanto a constelação conceitual se mantém na premissa dos anos
oitenta, como se verá do seu desenvolvimento, a manutenção de um
corte estrito entre modernismo e pós-modernismo permanece válido,
com OA estando tipicamente ambientado, pela instauração mesma da
sua problemática, na rubrica modernista.
Já a leitura de OA, por meio da constelação teórica
pós-estrutural, se torna, paradoxalmente, inteiramente adequada
para que se coloque, não a questão do modernismo, mas sim, e como
algo que é bem mais relacionado à trajetória de OA, esse tópico
acerca da transição que se pode conceituar entre os cenários pop,
dos anos sessenta/setenta, e o que se apresenta mais habitualmente
como pós-moderno, desde os anos oitenta/noventa.
O que essa sobreposição epocal conserva de aparentemente complexa
ou confusa, creio que no decorrer dos temas que enseja, suas
motivações se tornarão mais claras.
2) Leitura de Maria de
Lourdes Eleutério:
Inicialmente, parece-me adequado o tracejamento da leitura de
Eleutério. A metáfora arlequinal para a São Paulo bipolarizada
entre o conservantismo agrário e o progressismo industrializante,
sendo que a validez da metáfora se estende ao fato paradoxal de que
os termos do binômio estão bi-implicados geralmente num mesmo
agente, o empresário misto de cafeicultor paulista, estende-se a
essa obra jornalístico-poético-literária, mais tarde conceitual,
já pelo fato de que OA personifica ele mesmo a agência modernizante. Assinalamos
também a complexidade da situação política e social no que tange
às relações dessa classe paradoxal com um governo de que ao mesmo
tempo depende, integra e se opõe.
Quanto à complexidade da situação cultural, um dos seus motivos é
a íntima conexão a essa complicada tela política. Essa
interligação é esclarecedora de ambos os aspectos, porém. Assim,
a interrogação de Eleutério: “A descoberta da Europa? Ou do
Brasil?”, se coloca como uma chave no intercurso do tema inicial do
estudo, “Entre o transatlântico e o cadillac”, que irá
desenvolve-la.
A interlocução política e cultural das margens ao centro se faz
na própria margem, por via da vanguarda em trânsito no centro, como
uma descoberta da irredutibilidade das margens, no momento mesmo em
que se concebe numa escuta do Centro, mas é o mesmo para a situação
social-econômica, pois ela não se interpõe como assimilação do
projeto industrial-ocidental, sem voltar-se contra a prescrição que
esse projeto, em nível central, prescreve para a margem como sua
situação de marginalidade, a circunscrição à exportação
agrária.
Aqui, o sumamente interessante, é o fato de que é a marginalidade como relatos de irredutibilidade à História “universal” do sujeito da racionalidade no centro, enunciando-se praticamente em todos os setores existenciais, que comunica essa espécie de fio vermelho da vanguarda do centro as margens, como contaminação do influxo das margens ao centro, pela descoberta do seu imenso potencial de cultura e heterogeneidade que irá refletir no auto-desvendamento da heterogeneidade no centro. Assim, a escuta do centro pela margem agora, só poderia ser “poética”, no sentido de impelir o ouvinte a uma descoberta do seu ex-centramento, engajá-lo na aventura do seu próprio relato de irredutibilidade à História, descoberta, no entanto, não redutível a um horizonte de unidade identitária do "si", como se acreditou ser o caso no romantismo, de “uma” cultura. Assim, à pergunta de Eleutério, poderíamos desdobrar a indagação: descoberta do Brasil? Ou dos “Brasis”?
Aqui, o sumamente interessante, é o fato de que é a marginalidade como relatos de irredutibilidade à História “universal” do sujeito da racionalidade no centro, enunciando-se praticamente em todos os setores existenciais, que comunica essa espécie de fio vermelho da vanguarda do centro as margens, como contaminação do influxo das margens ao centro, pela descoberta do seu imenso potencial de cultura e heterogeneidade que irá refletir no auto-desvendamento da heterogeneidade no centro. Assim, a escuta do centro pela margem agora, só poderia ser “poética”, no sentido de impelir o ouvinte a uma descoberta do seu ex-centramento, engajá-lo na aventura do seu próprio relato de irredutibilidade à História, descoberta, no entanto, não redutível a um horizonte de unidade identitária do "si", como se acreditou ser o caso no romantismo, de “uma” cultura. Assim, à pergunta de Eleutério, poderíamos desdobrar a indagação: descoberta do Brasil? Ou dos “Brasis”?
Nesse sentido, me parece já uma modulação anacrônica, supor,
como Haroldo de Campos, citado por Eleutério como fórmula da “visão
crítica da história”, conforme ela, o que estaria subjacente à
interlocução da margem pelo Centro. Conforme Campos, a antropofagia
de OA teria sido uma tradução da modernidade como “um sentido
agudo dessa necessidade de pensar o nacional em relacionamento
dialógico e dialético com o universal”. A modernidade, a meu ver,
concretizou a superação do universal. Inicialmente a superação daquela visão antropológico-dialética de Hegel, onde a unidade
para si, ou conceito de uma cultura, não subsistiria sem
que seu sentido mesmo expressasse seu situamento num momento da
História universal cujo sujeito seria a centralidade do centro. É algo até corriqueiro considerar que qualquer conservação do interesse por Hegel na época da Vanguarda não poderia ser pela concepção sucessiva das culturas personificando os momentos da ideia. Nesse momento se estava descobrindo justamente a independência irredutível das culturas, sem nexo de umas às outras.
Mas também, ao longo do processo da vanguarda, uma vez que ele interceptou o ex-centramento no centro mesmo, cuja centralidade seria apenas ilusória, dogmática ou ideológica, o abandono da concepção culturalista inicial que se relegava cada vez mais à explicitação do seu compromisso a uma inteligibilidade ultrapassada, não correspondendo, mesmo, à Recusa já em curso no interior do modernismo, o termo agora podendo ser interpretado como modernidade, uma vez que o culturalismo não tinha como interpelar a heterogeneidade intrínseca, muito menos a mudança social. Recusa, pois, que se afirma após o simbolismo, do "Ocidente" como telos do desenvolvimento.
Mas também, ao longo do processo da vanguarda, uma vez que ele interceptou o ex-centramento no centro mesmo, cuja centralidade seria apenas ilusória, dogmática ou ideológica, o abandono da concepção culturalista inicial que se relegava cada vez mais à explicitação do seu compromisso a uma inteligibilidade ultrapassada, não correspondendo, mesmo, à Recusa já em curso no interior do modernismo, o termo agora podendo ser interpretado como modernidade, uma vez que o culturalismo não tinha como interpelar a heterogeneidade intrínseca, muito menos a mudança social. Recusa, pois, que se afirma após o simbolismo, do "Ocidente" como telos do desenvolvimento.
Ora, lá pelos anos cinquenta, à época de Campos e do concretismo,
a aventura modernista no país já havia conduzido a várias
peripécias que o seu início não anunciava, nem poderia adivinhar,
seja pelo influxo dos acontecimentos laceradores da unidade no
Centro, mesmo no seu caráter de centralidade – as guerras, os
totalitarismos e a URSS – seja pelo intercurso conceitual a que se
imbricou aquilo que havia começado apenas como um investimento
estético. Nesse intercurso, seria a fabricação mesma da História
como relato universal da ocidentalização, como da formação de um
Centro como sujeito do relato, que iria ser desconstruída, portanto,
com ela, a inteligibilidade do Universal como algo que ainda pudesse
servir de critério à episteme da modernidade.
Assim, os anos cinquenta, pós-Vargas, irão situar a imbricação
política da já algo antiga vanguarda num momento específico pelo
qual a questão da autonomia do processo econômico se enuncia numa
oposição cada vez mais pronunciada, ao caminho do processo da
nacionalidade, quando até os anos trinta ambos não eram
dissociáveis. Na altura da renovação modernista concretista, já
havia sido desfeita a agência do cafeicultor-industrial como típica
da situação outrora “arlequinal” de São Paulo, ou mesmo, já
se havia redefinido inteiramente o mapa dos antagonismos
estados-União. Mas é sintomático o fato de que Campos tenha
sobre-investido no sentido do universal a antropofagia de OA,
justamente nessa época tão aproximada ao momento de maturação da
obra conceitual deste, quando o que havia para se destacar com
veemência, era o enunciado de nada menos que um inconsciente da
Alteridade.
Esse fator racionalizante-universalizante do tipo de investimento
concretista da vanguarda, serve para a estipulação da complexidade
do seu movimento em termos de um binômio entre primitivismo e
geometrismo, como me parece ser importante no texto de Subirats.
Ocorre que não seria a mesma motivação, a meu ver, um geometrismo
corrosivo à Malevitch, e esse novo investimento da forma, décadas
após, e onde o que ela tem para comunicar é agora a universalidade
do Ocidente. Essa universalidade já se desdobra no alinhamento
político de Kubitscheck ao capital internacional, que se delineou
numa oposição frontal àquele mais autêntico resultado do processo
histórico da nacionalidade, na fase pós-totalitária do varguismo,
onde se havia composto uma frente heterogênea, fortemente
popularizada à esquerda, não só de composição governamental, mas
em termos de política econômica com programa de nacionalização de
empresas, equiparação salarial, reforme agrária, etc.. Nesse
sentido, seria a meu ver tão aplicável as expressões primeiro e
segundo Vargas, quanto o é para Wittgenstein.. O ponto não seria,
propriamente, porém, o pensamento do próprio Vargas, mas sim as
duas linhas de composição política, a estadonovista e a frente
ampla eleitoral à esquerda. Assim, a consolidação do regime
militar teria efetivado o que Kubitscheck não conseguiu
Enquanto que o geometrismo de Malevitch se implementava na motivação
originária do abstracionismo geométrico, que havia sido a
descoberta da arte não Ocidental, dos povos bárbaros e orientais.
Ora, essa trajetória das duas versões da nacionalidade
pós-estadonovista, sendo a trajetória de sua formação tão
complexa, irá revelar-se também complexa. Por um lado, a adesão
ideológica à face direitista-internacionalizante à Kubitscheck,
como nas justificativas paradigmáticas do concretismo, irá
defrontar-se com um novo momento ex-centralizante no Centro mesmo,
que lhe deveria ser no entanto o canal crítico, com o Pop.
A ironia desse investimento pop da sociedade da abundância, por um
ex-centramento sistemático do seu excedente, elevou de muito a
pesquisa formal, contudo, uma vez que a imagem da cristaleira no meio
da rodovia, como no tropicalismo, longe de alegórico-dialética do
novo e do velho, enuncia um afrontamento dos limites perceptivos, e
um novo enfrentamento do Inconsciente na arte, quando o anterior
primitivismo, com o surrealismo, havia se beneficiado do que era a
psicanálise pré-estruturalista.
Outrossim, o comprometimento racionalista-geometrizante do “estilo
internacional” no alto modernismo, que tão bem define o momento
concretista, ao dever interpelar o pop, o fará no sentido da
objetificação do produto estético, interpretando por esse meio
mercadológico a ironia pop da reversão do vínculo
ideológico-cooptativo da consumação pseudo-democratizada no centro.
O “Lubrax” será o símbolo dessa solução concretista do pop,
que investe a propaganda como por meio de uma revolução formal que
parcializa o processo criativo pela extração isolada da
materialidade do significante, no momento em que ela se desdobra numa
consequência prática, no cotidiano, isto é, no societário.
Mas o que permanece de conteúdo de vanguarda – isto é, de
reversão da História universalizante – nessa via, é o que tanto
se indagou desde então, acerca da veleidade revolucionária desse
expediente. Ora, muito dessa indagação foi feita num espírito
igualmente racionalizante, pelo efeito do Split do ego no centro, com o proletariado duplicando o locus de um sujeito da história à Hegel antes referencial apenas da revolução burguesa como cumprimento da emancipação. A indagação corresponde à interrogação da esquerda ortodoxa, ao que os concretistas puderam
responder adequadamente pela penetração prática do produto
estético, tenham ou não sido compreendidos. É que a arte deixava
assim de ser um distintivo de classe, e a solvência dos limites
ideológicos do acesso à cultura era então efetivada na prática
mesma da consumação.
A questão, porém, é que por essa altura, já nos sixties, a
vertente não “concretista” do processo histórico da
nacionalidade, aquela que incorporou a via da heterogeneidade da
cultura, da não assimilação do modelo universalizante
ocidentalizante, ainda que tenha insistido na industrialização
autonomizada, tendo se tornado de algum modo majoritária, era capaz
de incorporar em suas fileiras o outro do seu ímpeto, justamente as
correntes ocidentalizantes concretista-internacionalistas e
marxista-ortodoxas. Mas todo esse complexo estava sendo corroído de
dentro pelo intervencionismo capitalista, como hoje se sabe pelo testemunho histórico do golpe de 1964. Numa prova histórica
da irredutibilidade das vias que o integraram, porém, está isso
pelo que a cooptação intervencionista poderia se beneficiar
positivamente dos concretismos, mas não dos marxismos, para compor
sua imagem de ascendência progressista tecno-burocrática. Enquanto
que a coalescência da nacionalidade autônoma-heterogenética como
corolário do processo histórico pós-Vargas, pode com proveito
beneficiar-se de ambos.
O cerne dessa imbricação de vanguarda e sociedade, está, assim,
nisso pelo que a trajetória da Recusa se desenvolveu ao mesmo tempo
como trajetória da desconstrução do Signo como centralizante do
literário por via da linguagem. Ao mesmo tempo, como no teatro, não só de Artaud, recusava-se a
linguagem como via centralizante da cooptação, como o inconsciente
na canalização espúria do Édipo.
A concepção, portanto, de que, conforme Eleutério, a vontade do
artista empenhado na prática literária é “afirmar-se como ser
atuante enquanto trabalhador de palavras”, de onde se desdobra o
critério da palavra como instrumento de trabalho, e do universo
vocabular como o locus do exercício de uma visão de mundo do
escritor, parece-me conservar justamente o protótipo ocidentalizante
que a vanguarda, dadaístas à frente, estão procurando
desconstruir. O “trabalho”, como vimos desde Baudelaire, se
coloca como duplo, não mesmo, da atividade poética. É porque o
trabalho está interpelado na via da super-exploração, portanto
como derrisão do ser do trabalhador, na sociedade industrial, que
ele se impõe como um fator de refugo a selecionar, para o trapeiro
dessa sociedade.
Em OA e no dadaísmo, mesmo já no futurismo com sua vontade
destrutiva da arte de museu, principalmente no surrealismo onde a
porta do trabalho poético é o sono, sendo o locus dessa fábrica o
sonho, o trabalho resta como imagem de um acesso produtor a algo que
não está dado no social como no horizonte da consciência
racionalizadora-idealizante. Esse algo é o inconsciente, mas não
como o lugar “imaginário” do evasionismo, e sim como o
originário de qualquer prática dada como assimilável nesse
horizonte da palavra ou signo lógico, por um lado, social, por
outro. A superação do universal se anuncia como a recusa de
estabelecer nesse horizonte da consciência e da palavra como veículo
da ideia, o originário ou o constitutivo do seu próprio
funcionamento falogocêntrico.
O tema da “responsabilidade social do escritor” que Eleutério considera, deveria assim
ser totalmente revisto, já que ele não pode portanto reduzir-se à
reprodução dos esquemas feitos somente com base nos pressupostos
“ideológicos”, isto é, mais geralmente, ideativos, isentos da questão do inconsciente como do desejo. É
possível que essa responsabilidade se veja melhor servida por uma
Recusa da implementação do disponível em termos da cooptação, do
que pelas aparências de alinhamento com o sistema. OA pagou caro o
preço dessa descoberta, como tantos intelectuais e artistas de sua
época, ao se deixar seduzir pelo que não passava de um Split
daquilo mesmo a que pensavam estar se opondo. Assim, o
lamentável equívoco de se auto-humilhar, quando de sua estação no
partido comunista, mas também as inumeráveis defecções que inúmeros artistas na época sofreram, porque por mais que quisessem colaborar com o partido comunista, não conseguiam
humilhar-se o bastante para parecer estar suficientemente
adequando-se às ordens dos “trabalhadores” idealizados pelos dirigentes como cabeças receptivas unicamente do "realismo socialista".
Ora, o retorno ao tema antropofágico após a renúncia à
identidade splitada do partido, marca a viragem conceitual da obra de
OA, de modo que nessa transposição é o tema do inconsciente que se
torna crucial, não, a meu ver, como a busca das origens de um mundo
sem conflito, como na interpretação de Eleutério, mas sim como a
interpelação inteligente do inconsciente da alteridade, uma vez que
a prática em nível de cognição, sociedade e expressividade,
desses povos aborígines, revelam-se totalmente incoercíveis àquelas
ditadas pelo paradigma ocidental da repressão do corpo e da
neurotização-paranoicização do desejo. OA descobre, como já
assinalamos, resultados altamente positivos nesse gênero de
interpelação. Não me parece tampouco que paródia seja o termo
adequado, para o “avessar” do discurso da tradição, que se
colocou como seu procedimento.
A vice-dicção, por um lado, como na conceituação de Deleuze, se
coloca bem como transformação do fato histórico num acontecimento
reversor do significado que ele pretenderia veicular como conteúdo
do progresso pela catequese ou implementação colonial, quando o que
ocorreu foi a regressão de modos de vida extremamente desenvolvidos
do ponto de vista da adaptação e do conhecimento de mundo, pela
força bruta de um empreendimento colonial que primou pela sua
desinformação do mundo, seus conteúdos completamente idealizados,
falsos ao ponto do grotesco, acerca dos fatos, etc.
Mas, por outro lado, existe o reverso, como um surplus, dessa
positividade política do inconsciente, como resultado da
interpelação de uma via de pesquisa da heterogeneidade, que se
viabiliza no procedimento literário da vice-dicção, o qual se
relaciona ao devir artista.
Aqui, em vez de vice-dicção, seria o caso dessas transformações,
que Eleutério, ainda que tentando problematizar o desejo, por via da
polifonia da escrita, se limita a tangenciar por via da fantasia,
como imaginação do social. Inevitavelmente rebater-se-á o
alargamento da pesquisa formal sobre o motivo da alegoria, em vez de
suspeitar de um franqueamento das fronteiras cognitivo-perceptivas
como resultando do investimento desconstrutor da fixidez do
inconsciente edipiano, e da liberação do inconsciente da
alteridade, algo que não se produz na obra poética sem ser ao mesmo
tempo um resgate daquele conhecimento de mundo das culturas
não-ocidentais, como dos artistas recusantes desde o centro, por
exemplo, dos beatnicks, que havia sido recalcado pela pseudo-razão
do Ocidental.
O limite da crítica anterior ao pós-estrutural, algo que inclui
até mesmo Jameson, portanto, não se mantendo a sinonímia de
pós-moderno e pós-estruturalismo, está nesse “alegórico” de
sua diagnose, uma vez que a alegoria é o limite da redução da real
pluralidade da escritura a uma atividade ideativa e a uma
instrumentação linguística.
O inquietante para esse panorama crítico, aquilo que espreita como
o que está por trás da fantasia, seria a suspeita, que ele não
pode, contudo, dizer de si mesmo, de que nada há. O inquietante da
fantasia, se remete, pois, pelo alegórico, a uma outra ausência, a
do nome do país, no contexto jamesoniano, que é o que o escritor de
margens não pararia de tentar enunciar por meio do que seria a alegoria do país na aventura "realista" do personagem; ou da real emancipação
provista pelo novo nas economias dependentes, como na leitura de
Schwarz sobre o tropicalismo, porém apenas para servir aos objetivos conservantistas do velho; ou da decalagem intransponível entre o
desejo subjetivo, que seria do OA intelectual fantasista, a uma real
participação societária com as responsabilidades que exige, como
na leitura de Eleutério.
Ora, esse nada, como os buracos da máscara na literatura
fantástica, enuncia apenas a ausência da verdade idealizada como o
Si de uma sociedade como a ocidental, que não conhece de si o
próprio desejo, e o desinvestimento das suas falsas dicotomias, como
de seus falsos problemas. A “verdade” vem a ser somente da
fantasia ou da máscara, como aquilo que impele o desejo, seus
devires, além dos quais não há qualquer Ser. A questão se torna
que é que a máscara encena: uma dominação ou uma criação,
um gozo repressivo ou um gozo libertário, etc. A terminologia da fantasia parece,
assim, ainda comprometida com a idealização do desejo
A interpretação alegórica da antropofagia, como se pratica na
leitura de Eleutério, a meu ver com semelhança a Jameson, conduzirá tanto para uma redução
formalista da questão da interconexão da linguagem cinematográfica
ao texto literário modernista, quanto para uma extensão realista da
semântica antropofágica. Ocorre interpretação da questão da
nacionalidade como procura da identidade do homem na modernidade do
ambiente urbano.
Nesse equacionamento, o pensador OA seria necessariamente inferior
ao poeta, conforme Eleutério, por um conjunto de motivos desdobrados numa duplicidade:
por um lado os motivos de ordem pessoal, por outro aqueles de ordem
histórica, isto é, dado o que seriam as limitações do ambiente
intelectual brasileiro. Não acentuando muito as considerações de
personalidade, já que se conserva a identificação do estilo (ágil,
emotivo, sensual) e da pessoa (inquieta-indecisa, heróica-
salvacionista, grandiloquente-autoritária), algo que hoje a
psicologia, tanto quanto a teoria literária descartam, mas já se o
recusava na própria vanguarda – com se denota em vários exemplos,
especialmente num trecho de Mulheres apaixonadas, de Lawrence,
ou numa recente tentativa da mídia de veicular interpretações da
personalidade de pessoas famosas, por seus desenhos, a que psicólogos
responderam caracterizando o procedimento como inválido do ponto de
vista de sua ciência – , vejamos aquilo que se mantém na rubrica
da história. Ora, é a mesma subsunção ao pessoal que interfere
aqui, pois o questionamento social de OA nunca deixa de se manter, na
sua inteligibilidade, dependendo do que seria a sua inadequação à
prática histórica, já agora re-enfatizando-se sua gaucherie
idiossincrática por sua condição de intelectual brasileiro.
A indecisão é o que faz ressoar as séries: o indeciso desse
intelectual está, como "o paradigma de nossa cultura",
entre "a importação de ideias ou o resgate das nossas
possibilidades culturais".
O que há de transformador ou de irreverente no pensador é haurido
da modernidade, ou seja, da importação cultural, enquanto fator
expressivo da " complexa relação do capitalismo com o
desenvolvimento urbano". A tensão criadora, como também a
originalidade da obra, porém, se instala como enfrentamento do
real, pois este é apresentado como uma via única pelo Poder,
enquanto o que o intelectual produz ou intenta realizar são
alternativas. Mas estas devem ser ao mesmo tempo as que permitam
romper as amarras do condicionamento do meio para ser aceito, lido,
assimilado. A via do desejo está assim expressa nessa leitura, mas o
desejo só tem sentido histórico, só alcança o outro, porque seu
objeto é, primeiro, o ego, o “si” do mesmo.
Libertar a visão das fórmulas, e "ver com olhos livres" como na expressão do "manifesto pau-brasil", nessa
interpretação implica ampliar a aceitação do que é cultura para
abranger o fator libertador. Ou seja, o pensador é solitário, "não
tem consistência suficiente" para o enfrentamento a que se
propõe, o "de uma sociedade conservadora", na medida que a
sua questão, da nacionalidade, confunde o intuito democrático com
um ser formado da diversidade das partes, ou seja, com o
cosmopolitismo, a vida cultural conceituada como "deglutição
na universalidade". Assim, o pensador não assimila bem o que
está em jogo nesse intuito jurídico-político de se compreender "a
cultura na manifestação de todas as classes".
A meu ver, porém, aqui teríamos o reflexo de um dos motivos mais
importantes do modernismo pioneiro, e de OA em particular, na
pedagogia atual que critica a noção de analfabeto, e interpõe a
noção de iletrado, de modo que todos são sujeitos de cultura, em
algum nível iniciados em sistemas de signos. Ora, isso não é
apenas uma questão de desnível de classe, mas sim, justamente, de
heterogeneidade cultural. Não é só o sujeito do proletariado ou do
lumpen que são colocados como estrangeiros de sua própria língua,
numa sala de aula onde o dialeto praticado se insinua, porém, como o
português standard oficialmente falado no Brasil, mas também o
jovem interlocutor de uma cultura de massas, em todo caso de uma
cultura formada por gêneros de linguagem totalmente irredutíveis à
esse padrão; ou às mulheres ou formações minoritárias cuja
cognição tem mais um contorno “narrativo” do que formalizante na opinião de alguns, ou por serem sujeitos informados por gêneros discursivos irredutíveis, na opinião de outros,
etc.
Ora, na leitura de Eleutério, essa intenção pluralizante do
fenômeno da cultura, seria produtiva pela criatividade dos meios de
sua implementação poética, mas não se realiza de fato, porque
como junção do diverso, só teria sentido em termos de algo a ser
gerado "na sociedade", isso que, no entanto "não
possui ressonância efetiva no escritor". Entre pensamento e
ação, a divisão instala utopias e quixotismos, pelo lado da
veleidade ativista; verdadeira criação na palavra, somente por
outro lado, o do pensador solitário encerrado no gabinete que por
ela expressa suas contradições íntimas.
Ora, a aparente contradição da crítica entre essa antítese ora
postulada, e o anterior situamento da escritura como “trabalho”
do escritor, parece-me resolver-se pelo aclaramento da intenção
redutora do alcance desse “trabalho”, desde o início de sua
posição como algo meramente sobre palavras, se o meio é opaco ao
sentido. Essa visão compacta a interpretação ontológica ainda
metafísica, desvinculadora de ideal e material, ora para colocar a
ênfase em um ou outro dos termos, mais profundamente estando o ideal
tanto mais salvaguardado no seu domínio, tanto mais ele é capaz de
penetrar o material. O trabalho do escritor seria improfícuo ou
evasionista, quando se reserva ao desejo e à subjetividade, em vez
de realizar essa penetração material. Ora, todo o percurso
interpretativo, assim, está, porém, a meu ver, comprometido com uma
decalagem que não alcança o nível em que anuncia instalar-se,
aquele do que é ontologicamente originário, por se manter infenso à
questão do Inconsciente.
O que já se poderia notar dessa inadequação, é aquilo que uma
indagação sobre a margem entre desejo e Poder, expressa
inevitavelmente no grau de abertura das práticas discursivas,
deixaria entrever em termos do alcance efetivamente libertário
dessas démarches de vanguarda, tachadas assim de “evasão”,
quando uma sociedade que não a comporta desde um certo ponto, nunca
poderia deixar de ser considerada repressiva. Mas também a
impermeabilidade ao trabalho positivo do escritor, que nada tem a ver apenas com expressão de seus dilemas íntimos, ou de sua pessoa, mas sim a
construção do estilo, que abrange intercursos temáticos, por meio
da informação cultural, da interlocução da história da arte, da
problematização do que ele conhece em termos de soluções formais
existentes, etc. É o escritor como produtor textual, e a arte no
sentido que esse termo veio a circular, na vanguarda, que se ignora
ao identificar de modo idealista, autor e obra.
O trecho em que Eleutério examina especialmente " 'o caminho
percorrido' entre a intuição poética e a intenção teórica"
parece-me ter estabelecido o limite entre o estético e o teorético,
enquanto realizações literárias, no momento da conversão de OA ao
comunismo. Na leitura de Luis Morais Jr, a intenção é mais de
registrar a profunda continuidade dessas realizações, mas, do mesmo
modo, o fator que o viabiliza é a nacionalidade: na década de 20,
OA é "modernista" sobretudo "por ser brasileiro",
nas suas palavras a Joaquim Inojosa; desde o contato com o marxismo,
ele deve jogar criticamente com esse conteúdo teórico, e o faz
rejeitando o determinismo ideológico da ortodoxia, para considerar a
cultura como agente transformador.
Ora, desde que a ação catalizadora da produção teórica escrita
de um poeta, que no entanto sempre se coloca como um intelectual, no
sentido de um pensador consciente de problemas culturais
fundamentais, foi situada por Eleutério no marxismo, sua crítica do
dualismo o situa como "intelectual orgânico que deseja ampliar
suas relações sociais", cuja "atitude paternal"
consiste em pensar-se consciência de muitos, veículo do
esclarecimento do maior número de pessoas, etc.
A aparente contradição - chega-se a afirmar que ele cria "mesmo
sabendo que seu pensamento está condicionado por seu meio", se
bem que "produz tentando enganar as circunstâncias adversas a
ele" – mais uma vez se resolve, agora por isso que o magro
resultado de tão amplas perspectivas se deve à imaturidade.
O motivo da imaturidade se duplica. Por um lado, deve-se à
insuficiência natural do indivíduo frente à sociedade, já que
ele não consegue sair dessa condição limitadora de isolamento, não
consegue, ao que parece, dar um sentido efetivamente social aos seu
pensamento.
Mas deve-se também, conforme reporta Eleutério, às circunstâncias do meio social: 76% da
população composta de iletrados, como antes se dizia, "analfabetos", à década de 20; registros cuidadosos de
sua obra, ironicamente, sendo feitos apenas pelos agentes a polícia política estadonovistas de Vargas, que o prenderam coisa de aproximadamente
uma dezena de vezes e que o ficharam como "um dos brasileiros
mais obcecados pelo credo vermelho, para onde arrastava moças ainda
estudantes", de modo que deveríamos considerar como um mal
cultural que aqueles arquivos estejam sendo devorados pelas traças;
incompreensão do meio intelectual, que o publica pouco, ou de má
vontade, como o editor José Olympio que chega a inserir uma nota em Um
homem sem profissão, afirmando que o conteúdo não é de sua
responsabilidade; mas, afinal, o grande escolho de ser um homem do
contra, sempre crítico das correntes arrumadas de ideias e
movimentos, de modo que, para quem queria jogar uma bomba na Academia
Brasileira de Letras, um resultado assim se compreende.
OA teria sido, como numa epígrafe, esse "homem tão
incompreendido" - mas como entenderíamos, parece-me deixar esse
texto no ar como interrogação subliminar, um escritor "combatedor
do messianismo", cuja "escritura militante é messiânica",
esse impregnado de Nietzsche que se mantém sempre um salvacionista
devido à profunda religiosidade de que é imbuído desde a infância?
Em todo caso, a progressão do estético ao teorético, desde a
contaminação da escritura pela teoria, com o marxismo, se verifica
biograficamente pelo paralelo com a assimilação de autores, de modo
que temos o percurso da formação desse pensamento antropofágico
conforme a progressão das assimilações conceituais: Marx, onde a
crítica do dualismo converte a importância da cultura, mas ao mesmo
tempo a define conforme sua relação com a essência humana, que é
luta pela fruição do prazer; Nietzsche, crítico da cultura e
pensador do destino humano que fundamentalmente é o homem sem ódios,
que pode assimilar o que lhe convém; até o Freud de Totem e Tabu,
onde se trata da transição da horda ao clã. Não há, porém,
preocupação em ressaltar a originalidade da obra do pensador em
termos dos seus resultados conceituais, já que as "sérias
dúvidas" em relação aos assuntos sobre os quais ele "se
debruça intempestivamente", não chegam a ser elas mesmas
questionadas, mas parecem legítimas, e até a atualidade da
publicação do texto (início dos anos noventa), só se tem a obra,
na conta da história da cultura, do poeta - ou o escandaloso
bon vivant.
Ora, é nesse momento de síntese, onde se apela ao que seria
afinal um percurso ideativo, mas como assimilação do Ocidente,
que enuncia-se o nexo entre a realização na palavra e liberação
de uma realidade que congrega em si inúmeras possibilidades de
"histórias possíveis", ao menos em termos do desejo.
Essas histórias, porém, se bem que o trecho me pareça pouco claro,
seriam revelações de formações identitárias subjacentes ao
processo de recalcamento colonial. Mas é porque se compreende,
paternalisticamente, o trabalho do escritor como de porta-voz da
identidade amordaçada, que o aceno à multiplicidade contido no
“possíveis” volta a se homogeneizar num desejo único, o de ser
compreendido ou aceito por esses que seriam os seus libertados, ao
menos nesse nível da palavra. Sendo assim, torna-se óbvia a
limitação da veleidade dessa obra, ao ver de Eleutério. É que ela não concede ao
interlocutor a oportunidade para aquilo mesmo que deseja que ele
faça.
Teríamos em ato essa frustração do desejo do leitor compreender o
escritor, na “descontinuidade desorientadora” que a subversão do
tempo cronológico na montagem de Serafim Ponte Grande, por exemplo,
impõe, conjugando-a à “devoração de valores”, de modo que o
desejo, mais secretamente, é de um novo leitor.
A interpretação formal desse tempo corrosivo não me parece
estar bem estabilizada, porém, pois ao mesmo tempo que admite a
interpretação de Haroldo de Campos, pelo que a descontinuidade
característica do texto de OA vem de sua assimilação do
cubismo, Eleutério atesta haver “um fluir aleatório que muda
constantemente o rumo da narrativa”, o que é perfeitamente avesso
à intenção do cubismo, onde se trata da cartografia exaustiva do
objeto por meio de sua construtividade projetiva geométrica. E do
mesmo modo, quando o personagem Serafim se enuncia: “Tudo é tempo
e contra tempo! E o tempo é eterno. Eu sou uma forma vitoriosa do
tempo. Em luta seletiva antropofágica”, a dedução da crítica de
que “Serafim pensa ser superior ao tempo”, me parece inexplicável.
A questão é que a assimilação por Eleutério dessas categorias
extrínsecas – de Haroldo, e de Lucia Helena que sugere o tempo de
Serafim como “corrosivo” - parece não resultar totalmente de sua
própria aproximação da obra, que se revela mais na relação que
ela estabelece entre o que seria a intenção de estar fora do tempo,
como nessa “viagem acrônica” que seria o Serafim, e a
manifesta intenção crítica da sociedade existente com seus ideais
conservadores praticados por uma elite que da cultura tem apenas a
prática da importação sem perspectiva crítica ou transformadora.
Essa relação me parece bastante válida, ainda que, a meu ver, ela
seja passível de veicular uma reversão da habitual e sempre
praticada associação desse tempo descontínuo, seja com o cinema,
seja com o jornalismo e a comunicação de massas. Ora, creio que a
descontinuidade narrativa de OA, inversamente a ser veículo de uma
personalidade inquieta, ou de um apelo da máquina ágil da imagem
midiática, na verdade intenta desconstruir o acordo de ideal e
material que mantém a prática social num pressuposto de sua
legitimidade racional – quando, na verdade, essa prática,
sim, que é irracional de ponta a ponta, fundando-se no poder que é
efeito de um desejo perverso, em vez de expressar um consenso
ideativo desde o ser assim do espírito, etc. Como se sabe hoje, não
existe desordem, senão uma alteridade da ordem. Não há corrosão
possível do tempo, mas multiplicidade de conexões feitas
temporalmente, por onde o desnível da perspectiva investe a
verdadeira descontinuidade, aquela da ilusão macroscópica da física
clássica. Ou seja, não há corrosão possível do tempo, porque o
tempo único, homogêneo, etc, aquele da física newtoniana,
rigorosamente não existe.
É portanto a experiência do pensamento de um Outro, o personagem
como um mundo possível instaurado por uma irredutibilidade de
conexões tempo-espacializadas construtivamente em termos de
procedimentos literários, que se coloca na experiência literária
quando seu resultado é inevitavelmente a desmontagem da narrativa
tradicional cujo escopo seria reproduzir o tempo clássico. Ao mesmo
tempo, esse mundo e esse Outro são situados pela ex-centricidade ao
que seria a expectativa tradicional, seja do conservantismo político,
seja da ignorância do real por um pressuposto ideal de sua
homogeneidade.
Os procedimentos, porém, são nessa via da desmontagem da narrativa
tradicional, muito variáveis já na vanguarda. Como se verá, será
preciso confrontar as versões pelas quais na pós-modernidade isso
teria se revertido por um retorno do narrativo – quando o que se
chama “historicismo” pós-moderno é o oposto exato do tempo
contínuo da história universal. Nesse ponto, seria preciso uma
liberação da visibilidade daqueles que realmente foram
implementados por OA. Creio que a posição do problema de sua obra,
por uma perspectiva aproximada a essa que me parece mais autêntica
de suas motivações, se estabelece pelo seu situamento em termos de
uma oposição explícita, e explicitada por OA, do pensamento
antropofágico à metafísica ocidental. Pois essa reversão jamais
deixou, onde quer que tenha sido feita, de interpelar a
pseudo-universalidade da história ocidental, já partindo de uma
crítica de seu pressuposto linear temporal – um texto confrontando
o estruturalismo foucaultiano, na ambientação da História
universitária no Brasil, chegou mesmo a denominar os seus motivos,
uma vez que o descontínuo desses “jogos” a que se reduziu afinal
a história, ignora o que seria a “marcha da humanidade”,
una e contínua desde os seus primórdios.
3) A situação da Arte
na transição ao neoliberalismo
Ao longo dos anos oitenta e noventa, a recepção do
pós-estruturalismo no Brasil parece ter se afirmado de um modo mais
amplo. Isso poderia ser demonstrado por vários fatores: a quantidade
de publicações, muitas de cunho coletivo, como recolha de textos
que testemunham o investimento teórico de intelectuais brasileiros a
propósito, por exemplo, de Foucault e Deleuze; a frequente
aplicação dos conceitos de Derrida, em teoria literária; e o
intercâmbio cultural constante entre pesquisadores atuantes nas
cenas francesa, como nas produções da “trans” de Alliez, e
brasileira.
O estudo de Cusset, a propósito dessa recepção nos EUA, tematizou
a decalagem temporal desse fenômeno, em relação ao que seria o
originário de sua produtividade européia. Por seus cômputos,
podemos notar que o intervalo entre produção européia e recepção
norte-americana não é menor, bem inversamente, do que aquele que
poderíamos estipular no caso brasileiro. A produção teórica e
mesmo ficcional estadunidense expressamente interlocutora da
“filosofia francesa”, e inclusive Jameson, lembra Cusset ter
vindo do magistério da língua francesa nos EUA, se manifesta entre
os anos oitenta e noventa. A conferência de Foucault, de 69, por
exemplo, só teve tradução para o inglês dez anos após.
Ocorre, porém, que isso não deveria ser colocado, a meu ver, como
se mensurássemos um intervalo temporal desde um ponto fixo de origem
no tempo, que seria os anos sessenta e setenta, até um outro que
seria o de sua resposta, nas décadas de oitenta e noventa. Pois
entre essas duas décadas posteriores, produções da assim chamada
“teoria francesa” ainda estão sendo lançadas, seja por seus
escritores mais ligados à origem do movimento, como Deleuze-Guattari
e Derrida, seja por pesquisadores mais jovens, no entanto formados
nessa “escola”.
Ora, ainda assim, a noção de um ultrapassamento de sua temática,
como insinuado por Jameson, no entanto, no início do terceiro
milênio, isto é, praticamente no interior da década de noventa -
que Cusset apresenta tão rica de produções pós-estruturais nos
EUA quanto apta a produção de novidade autêntica, pois a
influência francesa ali não significou simples reprodução de
temas ou assimilação de assuntos, e sim aplicação real do
embasamento teórico a pesquisas inteiramente originais, relacionadas
à problemática local - parece-me ainda menos adequado, quando
observamos que justamente os problemas mais importantes que
colocaram, raramente vemos ter sido assimilados como tais, na
exterioridade das produções que se consagram relacionadas
indubitavelmente a essas influências.
Sem nem mesmo precisar salientar a qualidade dessas produções,
seria o caso de notar que ali onde se rejeita a “teoria” como
recusa “irracionalista” do pensamento “sério”, o
procedimento dessa ignorância ativa é simplesmente usar rótulos
tais como esse, para continuar fazendo como se coisa alguma houvesse
ocorrido no campo teórico, desde Kant, Husserl, Heidegger ou
Sartre. Como OA partilhou muitas vezes da mesma sorte, a convergência
de sua leitura com motivos pós-estruturais no Brasil revela-se
duplamente como um dos fatores indubitáveis, se for o caso de um
resgate histórico, da conveniência da aplicação pós-estrutural.
Pois, também, a convergência temática não parece fortuita. Ora,
um estudo interessante seria o da recepção da produção de margens
no centro, ao longo da formação da “teoria”. A expressão
“corpo sem órgãos” encontra-se literalmente nos Sertões de
Euclides da Cunha, para referenciar a favela de Canudos, por seu
traçado rizomático. Aquilo que Cusset tratou como a viragem dos
seventies, “da militância à existência” e que veremos abranger
uma transição intra-estrutural para o pós do estruturalismo no
sentido da recusa do formalismo significante, resultou como se sabe,
num “inconsciente da alteridade” que deslocou completamente os
pressupostos freudianos acerca do que se deveria esperar de uma
psico-análise em termos ego-lógicos. Essa expressão encontramos
já, como assinalamos, explícita em OA.
A questão das limitações teóricas de OA, cujo contorno temporal
não excede o auge do culturalismo, de que ainda se depreende uma
noção demasiado geral como a de “matriarcado”, não seria bem
colocada, portanto, se devesse sua armação a uma tentativa de
reconstruir o que seria a assimilação conceitual da produção do
centro. O comparativismo estaria inadequado. O uso dos termos, na sua
modulação criativa, na sua variação intrínseca à produção, é
o que me parece um caminho mais adequado à construção do sentido,
se isso não implica, todavia, uma ignorância flagrante ou um
descaso, por parte do pensador, daquilo que ele trata como seu
objeto. Se há variação, precisamos indagar igualmente, da
perspectiva crítica. Não creio que OA não a apresente.
Sendo assim, o amadurecimento da interlocução pós-estrutural na
atualidade poderia ser sinalizado como reconstituição dessa
independência nas margens, onde não iria mais se tratar de
aplicação de critérios, mas de interlocução de problemas, logo,
criação de novos conceitos. Em vez dessa possibilidade ser colocada
como ultrapassamento de um conjunto de obras originais, parece-me que
seria isso a sua real penetração na cultura transformada por suas
perspectivas. Pois a teoria não procurou instilar novos dogmas,
posicionando blocos puramente significantes para integrar esquemas de
consumação acadêmica. Ela instituiu uma alteridade do Saber, seu
exercício tendo menos a ver com o didatismo do departamento do que
com a conversa interessada entre pessoas informadas do seu
“mundo”. O que ocorre frequentemente é a tecnocracia acadêmica
revelar-se demasiado pobre, no seu intuito monotônico, para essa
interlocução que se matiza para desfazer os contornos de gêneros
disciplinares ou expectativas do poder.
A interlocução acadêmica busca definições, procede por
comparação de hipóteses. A conversa entre pessoas informadas cria
significância, atua na multiplicidade do sentido - e por aí o
maneirismo, o neologismo, a fina ironia dos termos são tão
importantes quanto o que eles devem enunciar - ao mesmo tempo em que
se coloca a tarefa de enunciar os verdadeiros problemas. A
atitude acadêmica é de alguém que quer mostrar serviço, ser
aprovado não somente pela instituição, mas pela ideologia que
prescreve o dever e o seu cumprimento. Está consoante à pura forma
da lei. A conversa entre pessoas informadas corresponde mais à
atitude de pessoas que estão na exterioridade da instituição,
ainda que apenas entre um e outro momento do seu expediente, e que
trocam palavras a propósito de suas observações pessoais de um
ponto de vista crítico da subsunção institucional a que estão
expostos.
Sobre isso, a expressão “bon vivant” é interessante, já que
só é expressa comprometendo o referente. Há um ignorância
ativa na construção de sua semântica provocadora-censora. Pois, “a
vida boa” é uma expressão consagrada em deontologia, como o
objetivo mesmo da interrogação ética. Contudo, é precisamente uma
acusação de ser contrário à ética, de ser um furtar-se ao dever,
o que está subjacente quando se afirma de alguém que é um “bon
vivant”. Mas esse dever, no funcionamento terminológico, é
abstrato. É ao dever em geral de comportar-se como se fosse
ontologicamente devedor do dever, que alguém é acusado de furtar-se
quando se afirma que é um “bon vivant”. Que o político deveria
ser o elemento de viabilização do sentir-se “bon vivant”,
das pessoas em geral, eis o que soaria bastante inesperado à
direita, como à esquerda. A esse espanto corresponde, inversamente,
aquele de Espinoza: porque os homens combatem por seu mal, como se
fosse pelo seu bem?
A decalagem da atitude acadêmica e da motivação teórica parece
assim interpor uma reversão da articulação do Saber que
tradicionalmente divide o conceito e o desejo como razão ou
intelectualidade e sensibilidade ou afetividade, sendo a verdade
função do primeiro por ser o lugar da enunciação do Ser, todo
conceito votado como conceituação da Identidade, do eterno, e o
segundo lugar apenas da fantasia, do irracional, do temporal (devir).
Isso chega ao ponto, porque , por uma série de motivos, já não se
pode desvincular o desejo da articulação do real, ao empreendimento
psicanalítico clássico. Nas suas várias vertentes, de que a
fenomenologia doublê de ciências do cérebro mais revisão de Klein
é atualmente um exemplo, isso consiste em colocar a sensibilidade
ou afetividade numa origem da psique, na infância, concedendo-lhes
a função de possibilitar o funcionamento objetivo do
intelecto.
Mas é a imagem do pensamento, enquanto algo cuja
originalidade não se subsume a “conseguir” manter a
representação não infectada pelo sentimento, sem que o seu oposto
seja necessariamente a inviabilidade do pensar, o que está em jogo
na teoria, não como a pesquisa do que fazem os “gênios” - isso,
inversamente, foi modelar para a psicologia funcionalista de que
resultou a pirâmide das necessidades – mas como a evidenciação
do que ocorre na exterioridade da obrigação de preencher
formulários acadêmicos, em geral quadriculados, em termos do que se
pensa na efetividade. Creio que a ex-centricidade de OA em relação
ao seu tempo “modernista” poderia então ser colocada nesses
termos: ele não apenas procurou reproduzir “estilisticamente”,
ou mesmo, de certo modo, comportamentalmente, a heterogeneidade da
cultura, tendo por modelo os extratos depositados pela tradição e
pela pesquisa acadêmica. Ele procurou, sim, compreender o
pensamento, a inteligibilidade atuante na produção dessa
expressividade de que resultaram, por vicissitudes extrínsecas,
esses extratos. Nessa via, seus resultados foram surpreendentes.
A interposição do cinema como elemento do virtual, que seria o
fator de sua intercessão à obra de OA, na leitura de Luis Morais
Jr., insere-a como problematização do tempo do pensamento que não
pode deixar de tematizar o devir na sua irredutibilidade ao ser. Aqui
ocorre uma transformação constitutiva da imagem da criação, seja
artística, seja conceitual.
4 ) Leitura de Luis
Morais Jr.
Luis estabelece nesse elemento “transpessoal” as máscaras
de OA contra a “literatice” que a meu ver corresponde à
tentativa pseudo-psicologizante de construção realista de uma
personalidade do personagem que corresponde, no entanto, somente a
estereótipos. O aborígine e os elementos da alteridade dessa
cultura não-ocidental, não são componíveis, se não se projetar
para tanto uma linguagem e uma série de valores que não são os
seus, como tais estereótipos. O elemento da alteridade não se
compacta como de um outro sujeito ou outra identidade. Aí também
surge o conceito de “inacional”, que reconstitui o sentido
societário da alteridade, que não corresponde a esse ideal de
identidade.
Quanto ao conceito de inacional, mais tarde poderemos desenvolvê-lo
com maior minúcia. Seria aproximável o relato irritado dos jesuítas
ao constatarem que os aborígines convertidos, logo se comportam como
se jamais o tivessem sido – por que seu intercâmbio cultural é
devirenesco, não identitário, inversamente à ideologia colonial.
Ora, aqueles estereótipos realistas não são supostos como
produtos de uma fantasia ou de um equívoco. Eles resultam do que
chamo estereótipo do Homem, quando, na atualidade, os seus
pressupostos gnoseológicos já estão ultrapassados. Contudo, não
se poderia supor ultrapassado igualmente o seu fundamento metafísico
em termos de uma imagem do pensamento que insiste, através das
sobreposições cada vez mais incoerentes, na manutenção do
“postulado antropológico”, conforme o enunciado de Foucault,
pelo qual uma unidade do ser se mantém como o significado oculto do
devir.
Luis desenvolve esses conceitos, do transpessoal e do inacional, na
proximidade de uma reversão da ontologia metafísica que ele
localiza nas produções literária e conceitual de OA. Contudo,
conceitua uma inadequação ao pensamento metafísico ocidental na
literatura brasileira, sempre que ela se envolve mais profundamente
com a pesquisa de sua heterogeneidade.
O exemplo seria o de Monteiro Lobato, não modernista, mas que por
inversão do sentido de sua crítica à alteridade do outro da
cultura, testemunha a potencialidade desta àquilo que o europeu não
pode sentir ou ver – como a exuberância da paisagem sempre
associável ao verão, que ao europeu acostumado à monotonia dos
seus céus sempre associáveis ao inverno, causa apenas aversão –
é jocoso o modo como Lobato descreve o verde da paisagem como de um
só tom, quando o mais óbvio da floresta brasileira é a variedade
dos seus tons e a profusão das suas cores. O tema da monotonia
setentrional resulta assim, espantoso.
É enfatizado por Luis, ao localizá-lo também na conceituação
de Hegel. Aqui há uma totalmente infundada oposição da terra do
norte, que Hegel supõe compacta, à terra do sul que seria
pontualmente fragmentada, resultando no diagnóstico insustentável
de que do ponto de vista botânico e zoológico a zona norte é mais
importante, contendo maior número de espécies
Ora, com isso se implementa a composição do que seria a ontologia
da alteridade. Aqui o tempo será o conceito axial, mas como o que
ele enuncia, conforme a terminologia das máscaras, é o devirenesco,
parece-me que não há apenas a assimilação do conceito de tempo
deleuziano, se bem que a armação temática dependa sem dúvida
desse elemento. Essa decalagem me parece estabelecida já pelo fato
de Morais Jr. formular uma “articulação” ontológica do tempo,
sem utilizar o conceito de “ideia”, assim como ainda
implementado, se bem que com intenção reversiva da forma ou da
definição lógica, por Deleuze. O cerne da articulação estará
agora num confronto que seria interno ao pensamento, não apenas
extenso na história, entre metafísica e “antropofagia”, no
sentido conceitual de OA.
A oposição enuncia, inicialmente, um confronto de meios. O
pensamento metafísico transita num meio que se auto-compreende como
o do homem, enquanto o pensamento antropofágico é o desse elemento
devirenesco, o “antropófago” que na circunscrição cultural do
modernismo surge como o elemento de margens, interlocutor dos valores
do centro, mas apenas para “devorá-los”, transmutando-os. Aqui
já se desfaz também o pseudo-conceito de que as pessoas “são”
o que comem: como se sabe, é o que o ser vivo come que se transforma
nele. O ser não se propõe idealmente como a identidade que se
conserva de um pólo ao outro do seu trânsito. O devir tampouco
poderia ser interpelado no seu conceito, como algo sem qualquer
consistência, como se fosse independente daquilo que assimila e
transforma.
Ora, entre o metafísico e o antropofágico ou devirenesco, se a
oposição torna-se interna à questão da nacionalidade, libera-se
assim conceitos aptos a captar a vinculação dessa questão àquela
da história. Em termos da gramatologia, parece-me que uma vez que o
Rastro opera na oposição margens/centro, e se trata de não apagar
o rastro, já é preciso pensar a unidade da história. O problema
não se restringe a que há vários relatos, conforme os pontos de
vista ou temporalidades; mas sim o que me parece tematizável como
oposição entre o conceito, por assim expressar, trans-histórico,
onde se trata do pensamento e seus problemas vitais, imanentes, e o
critério é a irrupção, podendo encontrar-se a expressão
desses problemas em qualquer tempo e lugar; frente a que teríamos o
conceito de histórico, como história da metafísica ou da
Europa, onde não pode haver tematização que não subsuma o
apagamento do Rastro, ou seja, as operações implementadas para
reduzir a visualidade a si como história universal, e por aí o
critério seria "dialético" no sentido de calar o
questionamento cujo procedimento não se radica como uma operação
assim, por exemplo, a questão do desejo, que se vota para a
exterioridade como irracionalidade ou mera arte, à Kant.
O problema da nacionalidade, intercepta, portanto, o da história,
de modo exemplar, pois por aí compreendemos que a exigência da
visualidade da nacionalidade não significa de modo algum a exclusão
do Outro da nacionalidade, mas um ponto de vista, justamente, que é
trans-histórico porque maneja um critério pelo qual as
especificidades dos processos culturais se tornam sempre virtualmente
incluíveis e atualmente incluídas, nesse caso sendo o critério
dado ao mesmo tempo como o mais fundamental aos saberes do homem, o
do pensamento.
Já o investimento histórico universal, inversamente, se coloca
como numa exigência puramente humana, mas enquanto dialética, ou
racional conforme a metafísica, na verdade reduz ao incluir
atualmente qualquer "nacionalidade" no sentido de
identidade, enquanto que virtualmente exclui toda alteridade, pois o
outro só se inclui se for para subsumir-se à mesmidade do idêntico:
irracional é qualquer questionamento da Identidade (ser) como algo
histórico, derivado, não necessário, natural, do humano.
O referente nacional do
trans-histórico é portanto um lugar de trânsito, seja dos valores,
dos acontecimentos ou da cultura, e a nação como esse lugar, em vez
de ser o locus de certas identidades ou fenômenos “típicos”.
Assim, a oposição nesse tópico, que coloquei em termos da
oposição histórico/trans-histórico, se tematiza em Morais Jr.
conforme a oposição entre “ histórico” e “
geográfico-cartográfico”.
O encaminhamento geográfico-cartográfico se enuncia em termos de
investimentos do desejo, problema imanente ao pensamento, nesse caso
o pensamento selvagem tornando-se modelar, em nível trans-histórico,
ao que se tratou como desviante em nível histórico. Por aí a
questão de como lidar com a evolução da "Antropofagia"
no registro de OA, do estético ao teorético não se desdobra senão
num elemento biográfico, enquanto que, de um ponto de vista
intensivo, desde que a problematização se coloca como a
antropofagia cultural, não obviamente ingênua ou ritual, ou seja,
desde o momento estético, os dados que serão desdobrados no momento
teorético já estão lançados e
expressos.: não se entendem "suas colocações como histórias",
mas como "acontecimentos colocados espacialmente, em territórios
ou platôs que se comunicam".
Essa oposição permite localizar com precisão o que seria a
originalidade do pensador brasileiro, ou seja, a reversão de certos
mitos que veiculam uma imagem estereotipada de OA. Morais Jr. trata a
sério a antropofagia como pensamento e prática revolucionárias.
Resgata, por aí, a articulação ontológica do pensamento
antropofágico. Já no manifesto o conceito de antropofagia se
interpõe como uma categoria existencial com três níveis: estético
("sentido, sentimento, modo de vida"), político ("a
ética, as relações econômicas") e filosófico ("o
pensamento").
A reversão deve ser pensada então como se esses três "níveis"
articulassem uma prática social anti-apropriadora: a questão mais
importante da antropofagia é a liberação das forças e dos fluxos,
interpretando-se assim o célebre "Biscoitos finos para as
massas".
Nessa articulação de ontológica em níveis não se conceitua o
social como o elemento universal de que se iria traçar a divisão
dos fatores por outros tipos de níveis, econômico-estruturais. A
grande originalidade dessa interpretação de Luis Morais Jr.,
parece-me ser que é o virtual, como o ontológico, que é
articulado, sendo o social interposto como efeito da articulação
virtual. O social é assim, por outro lado, ele mesmo um dos
elementos ontológicos do devir, enquanto que o devir se coloca, pelo
devirenesco ou trans-pessoalidade, em termos de coexistência como
heceidade, a essência que contém seus acidentes, como em Duns
Scottus.
Nesse sentido, para pensar o
social, em vez de um idealismo que seria prévio à prática, temos o
a priori do pensamento
em relação ao "ser", inclusive ao ser do social, mas
enquanto devir social que é, ele mesmo, um dos elementos
distribuídos no virtual-Real como elemento ontológico da
alteridade). Essa crítica social da instrumentação idealista da
prática é a do pós-estruturalismo. Ora, se não queremos tratar o
social à Durkheim, como "coisa", interpelar funcionalmente
a totalidade não chega a ruptura desse pressuposto objetivista.
Outrossim, a crítica pós-estrutural inclui o que em sociologia e
antropologia se tematizou pelo viés da mudança social como algo que
não simplesmente acomete a sociedade como um todo definido estável,
mas integra a noção mesma do que é o social. É sintomático que
essa transição no interior das humanities tenha a ver com a crítica
ao funcionalismo, crítica que se enunciou da coalescência do que se
designou a “sociologia do terceiro mundo”, para a qual os
parâmetros funcionais, tão a gosto da sociedade norte-americana,
revelavam-se singularmente inadequados.
Aqui seria interessante, já que a perspectiva histórico-literária
intenciona mostrar a valorização da recepção de OA no ambiente
nacional, colocar a questão de sua atualidade. A interpelação de
sua obra em termos dela mesma como interpelação do pensamento
aborígine – não apenas da importação dos seus motivos por uma
cultura ocidentalizada – é o que desloca a produção do seu
contexto nacional modernista, situando o seu ex-centramento.
Creio que hoje o interesse estaria no desdobramento dessa polêmica
na questão mais ampla da convergências e rupturas de modernos e
pós-moderno. O viés mais adequado aí seria a rubrica do Pop. Em
Morais Jr. a questão é tangenciada pelo tópico da comunicação de
massas, onde mais uma oposição se enuncia, agora entre comunicação
massificada como meio de neutralização de mensagens versus
comunicação de massa informada como meio de contestação política.
É nesse sentido que seria preciso, a meu ver, situar a crítica do
concretismo como uma problematização do pop que no entanto, não
apreendeu totalmente essa oposição.
“Contracomunicação”, de Décio Pignatari, não
significa, assim, uma critica da comunicação de massas.
Inversamente, trata-se de uma crítica à noção de comunicação
não intermediada pela comunicação de massas, isto é, a noção de
comunicação que seria idealizada pelos trâmites discursivos
tradicionais, livrescos, onde somente importa, na mensagem, o
referente. Assim, como o poema concretista que utiliza os vários
níveis da veiculação da mensagem, não apenas aquele da
referência, a linguagem da comunicação de massas é plural,
impelindo ao mesmo tempo as várias competências ou inteligências
do humano.
Que “o meio é a mensagem”, a lição de MacLuhan, nesse
contexto, se entende como uma transfiguração do social pela
comunicação de massas, assim como pela industrialização. Esta,
porém, está também mediada pela comunicação de massas, ou seja,
transfigurada como apreensão do que significa comunicar, logo,
pensar e ser, que deverão ser agora supostos como experiências
pluridimensionais e estéticas.
A comunicação de massas de Pignatari seria ao mesmo tempo
revolucionária do profissional da linguagem, em qualquer nível que
ele se situe, e revolucionada por este, que, entendendo a sua
novidade e estendendo-a aos acréscimos provindos da alta cultura –
da psicologia à física atômica, incluindo a estética
informatizada de Bense, etc. - poderia melhor intervir para catalizar
o seu papel transformador, liberalizante das competências múltiplas
do humano. O desenho industrial tem assim, o mesmo papel no que tange
à industrialização, o profissional suficientemente informado tendo
como, com a maior clareza, fornecer o que a indústria efetivamente
quer e pode fornecer, a experiência estética da consumação, não
apenas a satisfação da necessidade.
Ocorre que assim que a assimilação de MacLuhan se faz por um viés
otimista ou revolucionário que efetivamente não é o dele.
Inversamente, como na entrevista à Salvat (Teoria da Imagem),
MacLuhan esclarece dois pontos importantes a propósito do seu
pensamento, que vem de encontro ao que um certo senso comum
estabeleceu sobre isso.
Inicialmente, que “o meio é a mensagem” não significa
uma propriedade da mídia moderna, mas sim que as sociedades “sempre
estiveram” mais determinadas “pela natureza dos seus mass media
que pela mensagem que estes transmitem”; se há um caráter
revolucionário, no sentido de algo que interfere decisivamente com o
funcionamento social, dos meios de comunicação que são os de uma
época, esse caráter se encontra sempre, não sendo prerrogativa da
atualidade. Por aí, o alfabeto fonético seria tão revolucionário,
como transformação da sociedade que não o possuía, quanto a
invenção da televisão e do computador estão sendo hoje, em
relação à sociedade do passado. A natureza do seu meio de massa
seria um critério histórico, que permitiria compreender todo o
funcionamento de uma certa sociedade.
Sendo assim, seriam mais adequados, para referenciar os efeitos de
mass media atuais, os termos “tecnologia” ou “eletricidade” -
todo o sistema social é agora informacional-eletronicamente
intermediado. Na sociedade atual, todos os constitutivos que antes
eram individuais ou substanciais tornam-se informação. O
dinheiro, por exemplo, torna-se crédito, linguagem bancária, etc.
Quanto à “tecnologia”, sendo o que investe os mass media da
atualidade, MacLuhan é positivamente sombrio em relação aos seus
efeitos, ou seja, essa revolução não se faz num qualquer
sentido louvável, mas explicitamente destrutivo. Que o mundo
se tenha tornado “mundo da informação, baseado nos meios
elétricos”, isso significa um processo destrutivo, tanto do
ocidente, quanto, mais ainda, das margens – o rádio, por exemplo,
considera ele que causa nos países chamados atrasados, “os mesmos
efeitos que o rum e a bebida nos índios”.
Ora, é justamente porque substitui a mensagem por meio
escrito, porque substitui a “comunicação” no sentido anterior
ao que tem o termo atualmente devido à mídia eletrônica, que
MacLuhan sustenta, nessa entrevista, que ela é completamente
destrutiva da individualidade, como do Ocidente. Uma vez sendo
desagregador da identidade, a comunicação de massas, “tecnologia”,
informação ou “eletricidade”, provoca a violência: “a pessoa
não luta mais por odiar os outros, mas sim para demonstrar que
possui uma identidade própria”.
Seria preciso opor, nesse pronunciamento, os planos de interpretação
e descritivo. Como se poderia supor, temos motivos para não
concordar com a estipulação da crítica, que deve, contudo, ser
implementada, da sociedade midiática, em termos de algo que
contrapõe o que seria essencial ao humano como a identidade. Assim,
sua ideia de que a disseminação do homossexualismo se deve a que o
sujeito não sabe mais se é homem ou mulher, parece francamente
inadequada Mas os termos de MacLuhan também não são óbvios. Ele
não supõe, ao que parece, que a desagregação de que fala implique
um estado de não-subjetividade ou alheamento, por outro lado, mas um
em que o sujeito adere a uma auto-imagem no entanto prejudicial aos
próprios interesses. Nessa auto-imagem, o indivíduo é um robô, um
reflexo passivo do que lhe dita o meio que ele é ou que deva ser.
Isso corresponde, por exemplo, à crítica de Guattari, pela qual as
subjetividades são desterritorializadas artificialmente, na base de
imperativos que nada tem a ver com sua criação ou seus interesses.
Mas resulta interessante a leitura de MacLuhan a propósito do papel
do artista. Ele opera sempre uma agência entre o revolucionário ou
novo do meio, e as massas. No contexto da atualidade, porém, isso
deixa de ser esporádico, porque o meio é totalmente impermeável à
natureza humana das massas. O artista se torna uma necessidade, mas,
se o processo é destrutivo, deveríamos então supor isso como uma
inviabilidade da arte no sentido demiúrgico ou prometéico que
costumava ter.
Enquanto Pignatari pensa que a arte se tornou metalinguagem da
mídia, sendo então o seu papel revolucionário no sentido mais
positivo da modernização, que ele julga, como vimos, uma
estetização da existência. Sem aprofundar esse total desacordo
entre as deduções de MacLuhan e sua interpretação otimista como
um mito concretista de valorização midiática e artística ,
vejamos o papel redentor da comunicação de massas no Pop, que seria
possivelmente uma via do concretismo. Ora, no centro, o pop atuou
mais, utilizando a terminologia sociológica, naquele sentido
desburocratizante que caracteriza a movimentação social das
sociedades desenvolvidas, de industrialização madura. O Pop, nesse
sentido, seria visto como exigência personalística dos grupos
sociais que transformam assim o sentido dos movimentos atuantes na
sociedade, até então votados, justamente, no caminho do
desenvolvimento e da modernização.
Há vários sintomas que poderiam favorecer a hipótese, a começar
pelo grande proveito da psicologia humanista no cenário pop dos anos
sessenta e setenta, cujo motivo principal é a pessoa, no sentido da
subjetividade, contra o que seria a esquizofrenização
(dupla-ligação à Bateson), ou a despersonalização. O
investimento mercadológico do pop é desmistificador da produção,
ora pela valorização do artesanal, como conjuração da
impessoalidade imposta às relações do sujeito consigo mesmo
através dos artigos do seu uso, ora pela interpretação da
indústria como produção do artigo barato.
Ora, nesse caso, o envolvimento da arte pop com os símbolos que vem
da indústria, como da comunicação de massas, opera no sentido
oposto de confirmar as premissas de sua distribuição: limitação a
um público escalonado por faixa etária, condições sociais,
limitações psicológicas, etc. A arte se apossa desses signos de um
ponto de vista que seria o de um sujeito integral: o Mickey se
transfere, da infância programada para consumi-lo, ao adulto que
nele teve sua experiência de leitura, etc. O pop não me
parece ter no centro um papel modernizante, mas, inversamente, de
contestação aos parâmetros da industrialização ocidental.
O investimento concretista não está totalmente desvinculado dos
seus contextos de referência, como o pop e o cenário da produção
intelectual, nacional e internacional, mas institui esses elementos
conforme integráveis ao seu mito fabricado como retórica de
integração nacional modernizadora mediada pela comunicação de
massas. A valorização da literatura nacional, por exemplo, ocorre
somente se o referente se adequa ao contexto dessa arte
metalinguística da mídia, não havendo leitura dessa produção
pela relação ao seu próprio contexto histórico. O que resta
valorizável na literatura brasileira, assim, conforme o texto de
Contracomunicação, é OA, uns poucos versos, e um pequeno número
de poemas de Drumond. A estetização da consumação de massas é
emancipadora das massas somente se estas são pensáveis como desde
sempre adequadas ao salto qualitativo da consumação: resta bobagem
elogiar a tela da televisão porque parece uma fotografia, já que os
dois meios não são o mesmo na linguagem técnica, etc.
Retornando à leitura de O Olho do Cíclope, conforme Luis
Morais Jr., OA estaria, pela solvência da “literatice” , pelo
investimento polifônico, e pela problematização dos gêneros –
literários e linguísticos – como características de sua
produção, numa relação a meu ver intrínseca com o complexo de
motivações que coalescem no Pop definido como momento de superação
da versão adorniana da comunicação de massas como oposto da
cultura-crítica.
Essa temática da transição moderno / pós-moderno é sobremodo
extensa. Seu tangenciamento aqui é propício para interpor esse
momento do ex-centramento que venho enunciando como conexo ao quadro
de contestações da guerra fria, que conduz à superação do quadro
geopolítico bipolar.
-
Continuação da Leitura de Luis Morais Jr.: Platôs/ Rios / militância: da superação do capitalismo à superação da dominação.
A
crítica política de Marx havia suposto um nível dominante como
alvo, o da exploração econômica; assim, para Marx, como se sabe, a
esfera ideológica, que aparentemente veicula os direitos do homem,
suas verdades fundamentais, apenas expressa instituições e modos de
pensar que colaboram para manter a exploração de classe.
Na leitura de Luis Morais Jr, em OA a questão da transição para a
crítica do poder envolve uma ampliação desse raciocínio. A
religião e a moral do patriarcado aparecem como “representantes
hipócritas desses poderes” da dominação ocidental, seu estofo
não indo “além do político”, cujo programa se restringe a
essas dominação e exploração. O matriarcado é identificado como
o Fora, o impensado ou irrealizado do patriarcado, citando-se
Blanchot , a propósito do artista como aquele para quem “só
existe o lado de fora, o fluxo do eterno exterior”.
Luis propõe, para ancorar a problemática da exterioridade na obra
de OA, o conceito de “Excência”. No fora estariam os traços
diferenciais, essências não metafísicas, nem naturalistas. As
“máquinas” de OA, nessa designação incluindo-se de modo
aparentemente paradoxal entidades naturais como rios e platôs,
denotam sem dúvida um intenso investimento da natureza, o que
costuma ser associado às literaturas do exotismo tropical, como
valorização colonialista estereotípica da paisagem. Porém, essa
natureza de OA não impõe a forma, é o lugar das transformações.
As “águas do rio” e o “fogo eterno e vivente”, na
exemplificação de Luis, estão ao mesmo tempo opostos e
complementares, como imagens de um mesmo fluxo físico, material, o
que nos induz a associar o uso dessas imagens em Heráclito.
Excência seria a “essência máquina”, e Luis conceitua a
natureza, tema e tropo recorrente na obra de OA, “uma máquina
artificializada” cujo correlato é a excência como as linhas de
deriva e transformação expressiva das coisas.
Essa temática em OA se torna contrapontual à tradição poética
brasileira-ocidental, do barroco ao naturalismo stricto sensu.
Seria assim, na colocação de O olho do cíclope, um
“naturalismo lato sensu”.
O naturalismo tradicional pratica a linguagem da essência, que
trata a natureza como lugar das formas fixas, a figuração de
entidades naturais produzindo imagens da eternidade como
atemporalidade do idêntico, em vez da eternidade como infinitude do
devir. Ou então a natureza desdobra a identidade do homem, seus
universais individualizantes. O que varia, até o modernismo, são
formas estilísticas à serviço desse propósito metafísico.
Aqui seria esclarecedora a leitura da modernidade constante na tese
do professor Claudio Ulpiano (“Do saber em Platão e do sentido nos
estóicos como reversão do platonismo). A metafísica antiga,
platônica, funda o regime da identidade motivada por uma
identificação com o passado micênico, chocando-se com o “mundo
dessubstancializado” dos sofistas.
A modernidade, que supostamente rompe com o mito, torna-se
independente da transcendência, autonomiza a razão em relação à
fé, chega a localizar a identidade como função de integração do
sujeito (do eu a ele mesmo), conforme tão acuradamente observou
David Hume. Essa função da identidade metafísica, Hume credita ao
fato de que as idéias não teriam, na tradição racionalista,
origem nas impressões sensíveis.
Ora, se Hume, com isso, pratica uma crítica dessubstancializante,
resta que as funções de ligação da subjetividade, exercendo-se
sobre as idéias elas mesmas, mesmo se estas já são formuladas como
originando-se nas impressões sensíveis, podem continuar a ser
vistas pelos “pensadores do uno” de modo a autorizar a
substancialização da subjetividade que estaria por trás dos
mecanismos de combinação de idéias, formações de identidade,
recordações. Nesse ponto, o texto da tese desloca o foco da
modernidade européia para as selvas brasileiras descritas por Pierre
Clastres como ambiente de tribos cujo campo social, em vez de
instituir a necessidade do idêntico, conjura a sua consequência
mais imediata, a formação da dominação estatal.
Por aí, na expressão de Ulpiano, deduz-se de Clastres que “um
Platão tupi-guarani seria tão impensável como um déspota de
bando”. Como se sabe, o mecanismo descrito por Clastres
consiste nos confrontos permanentes inter-tribais e na constante
mobilidade dos chefes, o que ele interpretou como algo que impede
qualquer das tribos instituir-se sobre as restantes como um pólo de
dominação imperial-estatal. Essa fórmula reverte, na verdade, a
significação que qualquer conservador de horizonte de nacionalidade
luso-(brasileira), lhe concederia: Platão guarani, impensável
porque os selvagens não pensam. O que isso induz, na leitura de
Ulpiano, é à dedução inversa pela qual esses selvagens não
poderiam platonizar-se precisamente porque pensam, não apenas
repetem um mito (de fundação estatal, como dos micênicos).
Mas, nota Ulpiano, os gregos antigos chegaram a considerar a
existência de modo tão depreciativo, a ponto de fundar as
identidades, o divino, a eternidade como lugar da fixidez, a verdade
como objeto de aquisição.
Essa questão da depreciação da existência pelo Ocidental é
óbvia na circunscrição de Hegel, devendo ser interposta aqui, a
meu ver. Para Hegel, o corpo e a existência na duração são um
estado de “extrusão”, de exterioridade em relação ao que seria
o si mesmo. Mas que si mesmo se tornou pensável no elemento da
interioridade pura? Esse absurdo concede fundamento a toda
tradição ocidental metafísica-religiosa.
Assim, indaga Ulpiano: “que pensa
um insignificante selvagem dos litorais da América do Sul”?
Ulpiano fornece a resposta de Clastres. No pensamento desse selvagem,
há parâmetros referenciais postos como limites (a identificação
do mesmo, a finitude). Mas a existência não se define por esses
extremos, esses limites “incapazes de metamorfoses”, que a fixam,
e sim pelo espaço entre estes, em que se libera o seu jogo. A
identidade está oposta à existência, numa concepção
perfeitamente inversa à ocidental.
Ora, a identidade não é só a identificação do mesmo pelos
outros, mas a contingência de ter que limitar-se ao interior de si
mesmo, enquanto que a existência é o livre jogo das práticas que
só podem ter vigência na exterioridade, conjugando o corpo às
coisas, ao espaço, ao intercâmbio social, etc. Tudo aquilo que
impele para o interior de si mesmo é do modo da doença, do
aprisionamento, da coação. A espiritualidade mesma é um contato
com a exterioridade ainda mais externa ao círculo do que é
familiar, por aí a importância de signos portados como coisas da
natureza, uso de plantas ritualísticas, etc., tudo ao inverso de um
fechamento sobre si. Os retiros solitários, as injunções de não
sair do recinto sagrado, implicam assim uma economia do rito, onde
intervém todos esses fatores da conjugação com as coisas, e onde o
que se intenta é a alterização do mesmo, economia ritual que é
oposta à interioridade da visita ao claustro, quanto mais à vocação
monacal, onde a atitude é de recolhimento na prece, quando a
subjetividade se concentra sobre si mesma, como que destacando-se do
exterior.
Nesse espaço existencial do pensamento selvagem, o correlato da
afirmação da pessoalidade não é a individualidade, e sim a
alteridade. Parece-me importante recordar que o “não-eu” de
Fichte, aqui, torna-se o elemento positivo do pensamento, não o que
causa escândalo ao Eu, como o seu oposto. O não-eu torna-se o
devirenesco existencial, onde o “eu” varia na expressão enquanto
pessoalidade não reduzida ao “bloco superior” despótico
formado como um ego, conforme a expressão de Ulpiano. A pessoalidade
devirenesca se torna irredutível ao pólo personalístico-delirante
de um ego que utiliza o pronome pessoal como se fosse unicamente o
atributo de si mesmo, como um “eu” substancial que seria
totalmente independente do meio e dos outros seres, apto, porém, a
dominá-los.
Conforme Clastres, junto ao universo ético selvagem, regido pelo
limite da repetição dos mitos ancestrais (não de fundação de
domínio, mas instituidores de práticas, alianças e filiações),
instala-se um mecanismo de conjuração da dominação estatal – na
expressão de Ulpiano, esse mecanismo integra a “máquina
primitiva”, designação que, a meu ver, desloca a noção
funcionalista de “sociedade”.
O texto de Ulpiano transige, agora, retornando da selva para a
city. Com Deleuze, compreende-se que Hume atingiu essa realidade
social conjuradora da dominação, ao conceituar o homem como não
sendo um egoísta, mas dotado de simpatias parciais que se estendem,
pela necessidade da socialidade à sua existência, ampliando-se para
abranger, desde a mais restrita parcialidade da simpatia para com os
imediatamente próximos, os familiares e os aliados, até a
humanidade pensada como a espécie, como um todo. A história com
Hume, tem por referente “a natureza humana em sua plena
manifestação”, não a sociedade negativa, sem vontades parciais,
conformes à teoria do contrato social – ou, deveríamos
acrescentar, às supostas leis do devir histórico, de Hegel.
Mas a história, como me parece importante salientar, ainda hoje se
pratica como lugar privilegiado para instilar a anulação da vontade
por imposição de paradigmas ocidentais, dados por universais, de
modo que a alteridade do homem só se manifesta na forma da oposição,
do conflito, da disputa pelo poder por egos supostos como
definidores da condição individual – ou, como no texto de Hegel,
como a prova do predomínio do mais forte precisamente tornado o
sujeito histórico da dominação.
Retornando ao texto de Luis, é interessante que o paralelo com
Hegel mantenha sua oportunidade. A exterioridade no pensamento
selvagem de OA - inversamente ao extrusado de Hegel como o não-lugar
da essênca - é o trânsito da manifestação da Excência, que
Luís descreve como “essência puramente externa, imanente”, que
“não está na interioridade do sujeito, da consciência ou da
substância” e sim “no puro fora das forças livres” – está
no corpo, em vez de apenas na mente. Constrói assim a linguagem
poética de OA uma inversão da noção de alienação como condição
negativa da exterioridade de si. A valorização devirenesca da
exterioridade, em vez de alienadora, seria em OA, conforme Luis,
“consciência hiperestésica do mundo e do eu”, traço que me
parece conveniente à pessoalidade selvagem ou à afetividade
ex-cêntrica, não comandada pela castração ou frustração
ego-lógicas. Essa hiperestesia seria traço permanente da prosa de
OA. Luis institui o jogo conceitual entre macronarrativa e
micronarrativa.
Parece-me que não se trata da oposição entre macroestrutura ( o
tema implícito), e microestrutura (as sequencias frasais
explícitas). A macronarrativa é a “ilusão diegética”, na
expressão de Luis, como núcleos conceituados em termos de fatos
sucessivos que fazem da trama como que uma ocorrência factual, mas
nela constam não somente a história, como também ambientação,
focos do que se quer fazer ver, estruturas psíquicas de um indivíduo
tipificado num personagem, etc. confluem.
A micronarrativa é o conceito, a meu ver, escolhido para
referenciar o que habitualmente chamamos o “nível figurativo”
do texto. Por exemplo, um anúncio de certo produto pode ser
realizado utilizando os mais variados objetos, pessoas, vestes,
lugares, todos esses fatores sendo manipulados para ilustrar a
situação do seu uso. O nível figurativo não é o mesmo que as
falas ou o script escrituralmente mediado atualizando o tema do
anúncio.
A micronarrativa seria o nível figurativo do texto, mas com
alcance um tanto ampliado, para abranger, não somente os elementos
objetuais que o pontuam, fornecendo-lhe parâmetros de visualidade
imaginária, mas também todo o estofo da narrativa que se emprega
para estruturar a estória (pequenas memórias que nada revelam de
substancial à trama, elementos característicos de personagens
igualmente acessórios, etc.).
Ora, na leitura de Luis Morais Jr., em OA haveria uma subversão da
economia tradicional da leitura, que para recuperar as intenções
de sentido, teria que ignorar o micronarrativo para abstrair a
sequencia macronarrada. Aqui a hiperestesia se concretiza na subida
da micronarrativa, sua invasão do plano de realização do texto
mesmo. Esse não é o procedimento paradigmático da vanguarda, pois
não se pode reduzi-la a um procedimento único, mas, na proposição
de Luis, uma constante a localizar aqui, é a oposição dos
procedimentos de vanguarda à centralidade macronarrativa que
assegura uma leitura “maior” - no sentido indesejável do termo –
ou seja, instauradora da diegese como clichês supostamente
referenciais da realidade, que seria assim unicamente a circunscrição
da interioridade (subjetividade) ou dos seus percalços.
A crítica social só tem alcance válido, nessa circunscrição
tradicional, que chega ao seu apogeu nos realismos, se o seu foco for
o conflito inter-subjetivo, modulável até o limite do conflito de
classe. Mas que essas “partes chatas” da vida são, na verdade,
pólos de fixação do real somente para a neurose ocidental,
estupefaciada a ponto de ignorar a obviedade de que não há pólo
transcendente além dos momentos vividos, mas que neles é que se
joga o sentido que produzimos, que é nessa materialidade do tempo
que se instala a saúde e o valor dos valores (se os valores servem
para torna isso evidente, são valores saudáveis, caso contrário,
são patológicos), isso é o que a vanguarda critica ao proceder, de
modo vário, a inversão desse princípio macronarrativo na prática
do texto.
Pois, a associação da responsabilidade ou do status adulto com a
fixação neurótica de certos tópicos do real, deriva do cultivo de
valores neurotizantes que conduzem justamente a identificações
imaginárias, o inverso do que se espera da maturidade. Aqui, porém,
não julgamos a maturidade como a ascensão ao simbólico, e sim como
a aptidão ao enfrentamento do real. Ora, o real não é apenas o
correlato dos conflitos, nem é ingenuamente suposto imediatamente
dado, e sim conceituado como a circunscrição das práticas onde o
que se decide é do estado do ser e da sociedade. A liberação da
afirmação existencial se coloca como correlato da militância
política da exterioridade, contra a neurotização das lutas pelo
poder.
Assim textos em que nada acontece, onde o estofo são sonhos ou
relatos sem a concatenação de uma história, - como o nouveau
roman, entre nós praticado por Clarice Lispector, o exemplo de
Luís sendo O ciúme de Robe-Grillet - são experimentações
que se iniciam quando a micronarrativa se liberta da macronarrativa.
Essa liberação secunda a emergência dos devires e das diferenças
do texto e da língua, aqui Luís tangenciando os conceitos
deleuzianos de língua menor e devir literário. Ele associa, por aí,
fatores que seriam característicos da teorização de Deleuze e
Guattari (“a”, “b”, “c”) sobre literatura menor, que se
pode detectar como procedimentos específicos em OA, onde, porém, se
detecta mais alguns elementos importantes:
a) “desterritorialização da língua” que investe níveis
coloquiais, dialetos, variações de todo o tipo que escapam ao
padrão culto literário da tradição, o que Deleuze chama o devir
menor da língua, algo com um alcance político concreto, como quando
a variação investe sobre dialetos ou línguas reprimidas por uma
língua maior, como no caso de Kafka;
b) “ramificação do individual no imediato político”,
solvendo, pois, os limites da individualidade e da identidade;
c) “agenciamento coletivo de enunciação” onde as expressões
são investidas coletivamente transformando pelo enunciado as
práticas sociais, como quando se decreta uma greve ou uma
transformação da moeda, o que literariamente equivaleria a uma
encenação crítica, paródica ou pastichizante, da história, em
OA, a meu ver, sendo especialmente notável o caso dos decretos
governamentais ligados `a política do café;
d) “matriarcado enquanto linha de escape desterritorializante”;
e) a “excência (perceptos mais imanência, mais
artificialismo)”;
f) desinvestimento ou inutilização da macronarrativa, e
liberação da micronarrativa.
Aqui poder-se-ia esperar o contraponto com a leitura de Eleutério,
que demarquei como a oposição entre conceitos de “máquinas”,
em Luis, e de “instrumentos de trabalho” , na sua referenciação.
Luis mostra importantes pontos de contato, ao estender a conceituação
das máquinas em OA, da natureza para a imagem cinematográfica. Aqui
trata-se de reverter a concepção do cinema de ação, por onde se
faz a triagem ideológica do clichê, tipificando as dicotomias que
caracterizam o tratamento estereotípico dos valores: o civilizado e
o selvagem, o centro e a marginalidade, o bom e o ruim, o mesmo e o
outro, etc. O clichê veicula o nexo da estória com a História
definida como a universalidade do processo ego-lógico.
Mas a reversão dessa produção de imagem-ideologia, implica o
investimento da “máquina-imagem”, na expressão de Luís. Seja a
criação da imagem cristal do cinema de arte que se torna antitético
ao cinema ideológico, seja a montagem literária, onde a
hiperestesia e o desinvestimento dos ideologemas ocidentais, irão
necessariamente afrontar o modo de ver gramaticalizado da História,
com seus papéis sociais acomodados conforme a lógica da dominação.
Assim, Luis mostra que o valorizável da leitura de Eleutério
acerca de OA, está na sua compreensão da conjunção bem modernista
entre vida e obra, como tendo sido efetivada por OA, não como uma
simples redundância do cotidiano, e sim como um investimento
criativo da linguagem, pelo que o que se cria são novos mundos,
afrontando a História, mas com isso, a questão é se a “utopia”,
não se torna um outro tipo de história.
Ora, como ele nota, essa questão está relacionada ao potencial ao
mesmo tempo crítico e criativo da linguagem modernista, pois não se
constroem novos meios de concepção do real, sem ao mesmo tempo
desfazer os clichês da História ocidental, dada previamente como
“o” Real. Por aí a associação de
literatura-máquina-imagem-reversão do cinema de propaganda
ideológica, tem seu sentido constituído pela noção de que a
imagem literária ou na tela, não resulta de uma leitura previamente
dada do mundo, pelo que seria a unicidade daquilo que é mostrável.
A especificidade dos procedimentos literários e do cinema de arte,
assim como de estética e história, não se torna confundida numa
metaforização imprecisa. Luis observa que é a convergência de
áreas de estudo ou de formas de produções estéticas que se torna
interessante, aqui, uma vez que isso atua desde a constituição de
cada arte ou área do saber, na modernidade, exemplificando com as
reminiscências de OA a propósito da influência do cinema na
estética de vanguarda.
Ora, produz-se assim, através da máquina-imagem que essa
literatura investe pela subversão da macronarrativa
e pelo comprometimento hiperestésico, uma verdadeira
“anti-literatura”. Luís assinala uma declaração de OA onde
este tangencia suas experimentações como tendo por base a recusa de
“fazer a carreira literária de Paulo Setúbal”. Ao mesmo tempo,
a anti-literatura é uma anti-História, como potencial libertário
da visão da heterogeneidade nas margens. A
anti-história, como se pode observar pela homologia anti-literária
apenas se a literatura fosse o discursivo de Setúbal, não
significa pensamento a-histórico, mas sim a história pluralizada
pela perspectiva das Américas. A propaganda anti-capitalística não
basta, se ela não concebe a relação com o imperialismo.
Mas se o faz, precisaria apreender o que a meu ver seria a contribuição de OA à teoria do inconsciente. A tese de OA, segundo creio não visa originalmente a antropofagia, mas sim o pensamento poliândrico do aborígine brasileiro. A antropofagia como assimilação do outro seria apenas possibilidade do inconsciente poliândrico, que OA designou "inconsciente da alteridade" . Assim também na reformulação modernista da antropofagia somente cultural, assimilação das produções culturais estrangeiras numa verdadeira interlocução que não se reduz a imitação, teríamos a consequência de um pensamento realmente pluralista e heterogêneo. Na tese da excência que vimos conceituada por Luis, penso pois que temos o correlato do que designei inconsciente poliândrico, desse modo Luis logrando apreender o cerne do pensamento que neste inconsciente se produz.
Conforme OA, na minha interpretação, a poliandria não seria a incompletude do inconsciente edipiano, mas um inconsciente irredutível, que não tem por correlato o "um", pois os pais são vários. O pensamento poliândrico, o que OA designa o matriarcado como um regime onde não há privilégio do poder - assim não sendo mera inversão da hierarquia de gênero - mas sim apreensão da pluralidade constitutiva da sociedade, seria pois, a meu ver, em que Oswald foi precursor do pós-estruturalismo como teoria do inconsciente independente do edipiano. Mas em OA, um pensamento anti-dominação, apto ao democrático efetivo, uma vez que realmente um pensamento do heterogêneo, inversamente à concepção preconceituosa de que o primitivo reduz o múltiplo ao idêntico, o grupo ao arquétipo.
Se o pós-estruturalismo não significa necessariamente pós-modernismo, este não foi um problema tangenciado pelos dois referenciais que estudamos, Eleutério e Luis Carlos. Mas podemos observar que OA, se permanece coerente ao contexto de época, inovando até o alcance do objetivo pós-estrutural mais conspícuo na teoria do inconsciente, não deixa de se relacionar à "questão pós-moderna", como podemos designar o que seria por excelência a temática atual. Ou seja, a interdependência de Europa e terceiro mundo - na ótica de OA, Europa e América aborígine, colonial e pós-colonial - naquilo mesmo que se constitui como a moderna "História".
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Mas se o faz, precisaria apreender o que a meu ver seria a contribuição de OA à teoria do inconsciente. A tese de OA, segundo creio não visa originalmente a antropofagia, mas sim o pensamento poliândrico do aborígine brasileiro. A antropofagia como assimilação do outro seria apenas possibilidade do inconsciente poliândrico, que OA designou "inconsciente da alteridade" . Assim também na reformulação modernista da antropofagia somente cultural, assimilação das produções culturais estrangeiras numa verdadeira interlocução que não se reduz a imitação, teríamos a consequência de um pensamento realmente pluralista e heterogêneo. Na tese da excência que vimos conceituada por Luis, penso pois que temos o correlato do que designei inconsciente poliândrico, desse modo Luis logrando apreender o cerne do pensamento que neste inconsciente se produz.
Conforme OA, na minha interpretação, a poliandria não seria a incompletude do inconsciente edipiano, mas um inconsciente irredutível, que não tem por correlato o "um", pois os pais são vários. O pensamento poliândrico, o que OA designa o matriarcado como um regime onde não há privilégio do poder - assim não sendo mera inversão da hierarquia de gênero - mas sim apreensão da pluralidade constitutiva da sociedade, seria pois, a meu ver, em que Oswald foi precursor do pós-estruturalismo como teoria do inconsciente independente do edipiano. Mas em OA, um pensamento anti-dominação, apto ao democrático efetivo, uma vez que realmente um pensamento do heterogêneo, inversamente à concepção preconceituosa de que o primitivo reduz o múltiplo ao idêntico, o grupo ao arquétipo.
Se o pós-estruturalismo não significa necessariamente pós-modernismo, este não foi um problema tangenciado pelos dois referenciais que estudamos, Eleutério e Luis Carlos. Mas podemos observar que OA, se permanece coerente ao contexto de época, inovando até o alcance do objetivo pós-estrutural mais conspícuo na teoria do inconsciente, não deixa de se relacionar à "questão pós-moderna", como podemos designar o que seria por excelência a temática atual. Ou seja, a interdependência de Europa e terceiro mundo - na ótica de OA, Europa e América aborígine, colonial e pós-colonial - naquilo mesmo que se constitui como a moderna "História".
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